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12 de Jan de 2016

“Os Oito Odiados”: A história americana segundo Tarantino

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AVISO: Pode conter spoilers

Quando “Django Livre” foi lançado em 2012, uma reação chamava a atenção: as acusações de racismo contra a obra e seu autor, Quentin Tarantino. “Os Oito Odiados” coloca essa questão novamente em pauta por ser o trabalho mais diretamente político da carreira de seu diretor-roteirista, historicamente cercado por controvérsias. Há muito o que se discutir para além disso, mas parece prudente tirar o elefante da sala antes de seguir em frente.

Superficialmente, é fácil identificar os fatores que motivam tantos brados raivosos contra QT: no nível mais básico, seu filme é uma reunião de figuras de caráter questionável que jamais evitam qualquer tipo de comportamento ofensivo. Causa incômodo, ao menos em um primeiro momento, a forma como os ataques são direcionados principalmente ao personagem negro e à personagem feminina do elenco central — a n-word, traduzida como “crioulo” na legendagem em português, aparece aos montes, acompanhada por agressões físicas e verbais de forte cunho misógino. Tratar o filme ou o cineasta como preconceituosos em função desse desconforto natural frente ao absurdo das situações em tela, porém, soa bastante despropositado.

Não é preciso promover uma defesa histórica para Tarantino, resgatando posições e exemplos capazes de livrá-lo de tais acusações (nem mesmo ele pretende algo parecido), mesmo porque boa parte delas possui um mínimo de fundamento. O que importa é que, pela primeira vez, o diretor se mostra interessado em discutir ampla e abertamente certos tabus, mais do que simplesmente desafiar o convencional entre um banho de sangue e outro. A bússola moral que guia “Os Oito Odiados”, a mesma que falta a seus personagens, é evidente e composta por uma teia de elementos bastante complexa, que parte desde a forma de encarar o gênero western (bem distante do falso e datado papel civilizador do homem branco) até as condições climáticas que reúnem o elenco no armazém de beira de estrada (não por acaso, a nevasca é chamada de “inferno branco”).

Ainda mais importante é a maneira como as coisas se ligam à história americana. Situada no imediato pós-Guerra Civil, as reflexões ganham contornos atuais graças à habilidade de Tarantino em moldar diálogos que conduzem a trama. Em determinado momento, o futuro xerife Chris Mannix (Walton Goggins) afirma que “Os brancos só estão seguros quando os negros estão assustados”. A resposta surge depois, na voz do Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) — “Os negros só estão seguros quando os brancos estão desarmados” —, fazendo referência ainda a um documento assinado pelo presidente capaz de garantir essa segurança. Trata-se de um texto em sintonia com posições muito vivas no cenário político dos Estados Unidos da América, sobretudo com relação ao urgente controle de armas de fogo e à brutalidade policial orientada pela cor de pele de suas vítimas, com frequência tratadas simplesmente como alvos.

Tarantino, que participou de protestos recentes contra o racismo institucionalizado no aparato do estado americano, parece disposto a promover essa discussão. Para tanto, sua estratégia é de aquietar a ação durante a primeira metade do filme: mais de uma vez, um personagem diz a outro para irem “mais devagar, bem mais devagar” no caminhar da história. Um conjunto de elementos permite que tudo transcorra de maneira mais ou menos segura, como um típico slow burner, uma chama que queima lentamente até a explosão final. As dinâmicas entre personagens geram combinações interessantes, sendo a de maior destaque aquela entre o major negro da União e o general confederado Sandy Smithers (Bruce Dern).

Somam-se a isso outros traços marcantes da filmografia de QT: o uso de música feita em cena (do piano, do violão), que aqui aparece fazendo fundo para longos relatos orais, a tradicional verborragia, que se adequa bem à atmosfera claustrofóbica de mistério, e a divisão em capítulos, que facilita os curtos saltos temporais e assegura o caráter episódico de cada uma das interações mencionadas. Por outro lado, os excessos existentes trazem novamente à tona a necessidade de um editor rigoroso ao lado do cineasta, capaz de eliminar gorduras como as duas sequências de ida ao banheiro, até justificadas, mas exageradamente longas — em alguns momentos o montador Fred Raskin parece perder o ritmo, ainda que o resultado seja mais regular do que em “Django Livre”.